Reflexão num amanhecer

O planeta dá voltas em torno de si mesmo. O sol, ao longe, transmite sua intensidade através do cosmo. Aqui, nós somos escravos deste sistema, que existe há tempos imemoráveis. No espaço de tempo a que chamamos de dia, vivemos nossas pequenas paixões. Seja o que for, nosso ritmo natural será ditado pela alvorada e pelo anoitecer. É reconfortante, porque sabemos que apesar de tudo que possa acontecer com a humanidade, o planeta continuará o seu giro. Mas também, ao mesmo tempo, isso nos sufoca. É como se estivéssemos vendo repetidamente uma peça de teatro. Um dia é uma tragédia, no outro é uma comédia. Mudam os cenários, os atores, o texto, mas o palco continua sendo o mesmo. Os eixos a que estão presas as engrenagens não mudam.

É engraçado que, com o advento da vida moderna, acabamos passando mais tempo dentro de nossas próprias paixões – alimentando nossos egos com pequenas doses de indulgência – do que observando as engrenagens do planeta. Somos reticentes. Não queremos nos maravilhar. É como se fôssemos bons demais para isso.

Talvez a modernidade esteja nos corrompendo. É legal ser visto como cínico, cético, irônico e indiferente. Nós agimos assim porque no fundo somos frágeis como crisálidas. Vestirmo-nos com túnicas de aço e máscaras de LCD é uma maneira de proteger nossas existências da agressão contínua e diária que é viver em sociedade.

Eu cansei de sair de casa. Há momentos em que não tenho a menor disposição de sair. Por vezes isso se confunde com medo. Tenho medo que alguma coisa vá a acontecer comigo, ou com as pessoas que amo.
Pode-se argumentar: “você sente isso porque vive em uma das cidades mais violentas do país.” Sim, é verdade. Mas é algo além. Posso sentir esse tipo de sensação em qualquer metrópole.
Em Vancouver, no penúltimo dia em que fiquei na cidade, tive a sensação de que poderia morrer a qualquer momento. É como se a urbe quisesse me expulsar de suas entranhas. Em Nova York, senti isso o tempo todo. Há graus diferentes. Mas, geralmente, toda vez que chego a um lugar novo, o primeiro dia e a primeira noite que passo são terríveis. No dia seguinte, as coisas melhoram.

Pensamos que a vida em sociedade é a melhor coisa do mundo, e o simples pensamento de voltar à natureza é aterrador. Isso é porque chegamos a um nível de estranhamento em relação aos outros seres vivos tão grande, que já não saberíamos lidar com o nosso habitat original.
A metrópole é um útero corrompido. Cremos que estamos protegidos e seguros, mas é ela mesmo que nos mata aos poucos. Seus conformes sociais, suas regras, suas punições, seus riscos. A vida está muito perigosa. Estamos nos exterminando. Somos cada vez mais populosos, mas não damos conta disso, ao passo que nos fechamos dentro de nós mesmos.

Não é a toa que recorremos ao escapismo hedonista para tentar preencher o vazio existencial. Nunca farramos tanto. Uma orgia romana de antigamente não é páreo para uma festa open bar de hoje em dia. O banheiro de uma boate – a igreja de todos os bêbados –. é nada menos que um vomitorium.

Também somos adeptos de uma escatologia imediatista. É só ir a qualquer livraria. 2012. Era de Aquário. Apocalipse. Nomes diferentes para um mesmo e romântico fim para a nossa aventura.

E sim, somos românticos. Mas não como antes.
Nosso romance não é como o dos realistas, ou dos burgueses, ou qualquer outro. O espírito do tempo atual é ágil, rico, informado, cético, divertido – mas essencialmente, perdido em si mesmo. Vazio.

Precisamos olhar para fora, reconhecer o outro, e perguntarmo-nos: o que fazer?
Depois, basta agir.

E perscrutar as estrelas, a lua, o nascer e o pôr-do-sol.

Leo Trevas

1 Comentário

  1. Muito bom! É o famoso medo da chuva! Pra viver é preciso muita coragem.


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