Carpano

“Mais vinho, senhor?”, perguntou o Garçom. Enquanto ele debruçava-se para servir o Cliente, preenchendo de carmim a taça cristalina, sentiu um puxão forte em sua gravata borboleta preta e de cetim.

“TEM CARPANO!?”

O Garçom, aturdido, sussurrou hesitantemente: “Carpaccio, senhor..?”

“Não porra, Carpano!”

“Receio que não. Deixe-me checar com o gerente. Um minuto, por favor.”

Sete minutos depois retorna o Garçom, acompanhado do Gerente. O responsável por aquela bodega de refino era um homem forte e barrigudo, de seus quarenta e cinco anos, que ostentava bigodes portugueses orgulhosamente penteados.

“Mascarenhas, me explique por que você não está querendo atender ao nosso cliente aqui”, bradou com sua voz de tenor macarrônico.

“Eu o atendi, mas ele me pede pratos que desconheço. Não servimos ‘Cormano’ aqui, servimos?”

“QUE PORRA DE CORMANO, GARÇOM FILA DA PUTA! É CARPANO! CARPANO! Eu paguei por uma porra de Carpano e esse veado de merda quer me fuder de quatro?! PORRA” urrou o cliente.

“Mascarenhas, traga-nos um prato de Carpano. Agora.”

“Mas chefe, eu não sei o que é isso. Seja lá o que for, não temos isso aqui no restaurante!”

“BASTA!”, exclamou o Gerente por baixo de sua vasta bigodeira; “Você está demitido. Passe no RH”.

E lá foi o Garçom, cabisbaixo e indignado, imaginando como iria pagar o fiado do mês, como devolveria os quinze reais emprestados para o ingresso do santinha. Pior ainda: teria de aguentar a fúria incontrolável de sua mulher e três filhas logo depois que elas descobrirem que a pedicure semanal teria de ser cortada.

O Gerente chamou um outro garçom – um tal de Rufino. Esse, jovem e disposto a mostrar um bom serviço, prontamente foi à cozinha pedir uma travessa do infame Carpano. Um minuto depois, quando sentiu que os ânimos do Cliente estavam mais acalmados (quer pelo efeito do álcool ou pelo prazer de uma discussão ganha), se aproximou com cuidado de seu patrono.

Estranhamente, ele parecia estar em um outro mundo. Parecia mais determinado em prosseguir degustando luxuriosamente o vinho Chateu de la Recherche, safra de 1971 – bebida cobiçada pelos sommerliers como se fosse uma virgem vestida de branco. Apenas seu seio esquerdo desnudo a refletir a luz da lua na noite nupcial, os cabelos negros e cacheados, caindo pelas costas de alabastro.

Mas ele bebia como um irlandês grotesco e imundo, golfando nas mesas de madeira da taverna de tempo em tempo. “Taverneira, meretriz de merda, traga-me mais um trago”.

“Me desculpe senhor, mas se possível gostaria que me explicasse exatamente o que seria este prato, ‘Carpano’. Acredito que o possuímos em nosso cardápio, mas com outro nome. O senhor parece ser de outra região e é possível que lá a receita seja conhecida por um imbrólio diferente.”

“Claro. É simples demais” o cliente falou, enquanto mirava entediadamente o chão do bar.

“Hum, sim… e?”

“Carpano, meu grandissíssimo amigo, é um CARALHO enrolado num PANO.”

E ele rolou pelo chão, esperneando num torpor bêbado, descontrolado e fugidio, como um vigarista depois de enganar sua última vítima antes de ser preso e morrer enforcado. Estava completamente chapado de éter.

7 Comentários

  1. É isso que eu digo…

  2. “E ele rolou pelo chão, esperneando num torpor bêbado, descontrolado e fugidio, como um vigarista depois de enganar sua última vítima antes de ser preso e morrer enforcado. Estava completamente chapado de éter.”

    mermãaao KKKKKK me rasguei de rir… não consigo definir esse estilo de humor, mesmo sabendo do nome. Carpano está para mim da mesma forma que GONZO. kkkk (tou bebum)

  3. uhauhauaha, pqp

  4. tah bom de tu atualizar isso aqui neh fio?

    fiz um blog narcisista, totalmente diferente do teu.
    mas botei um link pra cah, então, se tu quiser, bota aqui o link do meu tb!

    http://www.desconcertopessoal.blogspot.com/

  5. Está demitido………

  6. irmaozinho. tem Carpano?

  7. [...] completão e um coca de um litro. Luciano: X-Bacon, mal passado. Garçonete: E tu, cabeludo? Eu: Um Carpano. Garçonete: Pra agora ou pra viagem? Eu: Pode ser pra agora. Sem Gorla tá? Garçonete: O.k. Eu: E [...]


RSS Comentários URI identificador de trackback

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.